segunda-feira, 5 de setembro de 2016

EU DE MANHÃ



Eu faço parte
da manhã,
do céu azul,
do vento,
do mês de setembro,
do fim de inverno,
da espera da chuva...
E então eu endireito meu corpo, levanto a cabeça e deixo que meus olhos apreciem:
o dia tingindo de azul e dourado, de verde, de outras cores também.
O vento saudando as folhas das árvores, a grama, as águas do rio, as pessoas, os bichos, o asfalto, todas as coisas, bonitas ou não...
Pessoas apressadas passam na passarela, não sei se reparam o dia, correm para o trabalho.
Abaixo da passarela algumas pessoas andam apressadas, outras caminham, umas conversam, outras são somente pensamentos. Trabalham o corpo e a mente, o coração bate agradecido, estas sentem o dia.
Um pássaro branco e azul, dialoga com o rio,
eles se entendem.
Cachorros acompanham alegremente seus donos,
eles se completam.
Vejo meninos com mochilas nas costas, já deviam estar na escola, mas do jeito que caminham, com olhos curiosos, parecem querer errar o caminho...
O meu caminho, porém,
uma certeza me traz, faço parte de tudo isto.
 Sou dia, sou vida, sou do mês de setembro.

Joyce Pianchão


terça-feira, 30 de agosto de 2016

EU LEIO




“Perto do coração selvagem”
 Clarice Lispector

Primeiro romance da autora.
Depois de ler a biografia de Clarice interessei-me por seus romances.
Hoje no fim de tarde, só em casa, no silêncio da varanda, assentei-me no almofadão e com os pés livres da sandália abri o livro.
O vento completava o prazer do momento. .
Lá longe o latido de um cão, uma voz, uma vassoura a varrer...
Mas logo nada mais eu percebia, entrava no mundo profundo de Joana.
O mundo de Joana me leva ao meu, porque sem mesmo notar, passo do dela para o meu também profundo mundo...
Muitas vezes ao terminar a leitura de uma página eu precisei retornar ao topo, ou então parar um instante e retornar a leitura. Clarice faz isto com a gente, nos provoca, mexe com nosso sentir e pensar.
Escutei a campainha tocar e não atendi. Fui um pouco Joana...
Assim é quando se penetra no coração selvagem e liberto de Joana ou seria da Clarice?

Joyce Pianchão

domingo, 28 de agosto de 2016

DELICIOSAMENTE VIVIDO



Domingo

Inverno, é final de agosto, tenho motivo para não ser muito simpatizante deste mês, ele está no fim, nem tão ruim foi.
O dia lindo de céu azul convidou-me para uma caminhada. Mais de duas semanas sem caminhar, coisas do mês de agosto...
E lá fui eu, como sempre percebendo a graça de viver, de ver o amanhecer ensolarado, o vento, as pessoas, os cachorros, as árvores que pareciam estar ali para enfeitar os meus passos.
Meus pés caminhavam e meus pensamentos voavam soltos. O corpo se fazendo leve.
Uma triste notícia eu recebi à tarde e por um instante em silêncio fiquei.
E se o fim para todos um dia chega, para mim também chegará, isto é certo. Não devo, porém desperdiçar a vida pensando, quando eu não mais a tiver.
 O fim de tarde me levou para comprar um livro, mais um romance de Clarice Lispector. No café eu parei a esperar pela hora de assistir mais um filme de Woody Allen: Café Society.
Assim foi o domingo: apreciado, refletido e vivido. Deliciosamente vivido.

Joyce Pianchão

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OS OLHOS



Acordaram...
Não foi simplesmente um abrir de olhos.
Eles se abriram como todos os dias ao amanhecer, é fato, mas despertaram de um jeito diferente, estavam diferentes, queriam ser diferentes.
E saíram e foram pelas ruas olhando. Entraram no prédio e sorriram. Sorriram também no elevador, para a secretaria da médica.
Com a médica foi diferente, eles fixaram nela e viram outros olhos que também sorriam e que também queriam ser diferentes, queriam fazer diferente e fizeram...
Tanto que fizeram que os olhos que ali chegaram saíram com brilho, um brilho que não trouxeram, mas saíram com ele e sorriam mais ainda.
Os olhos entraram no táxi e encontraram outros olhos, vividos, experientes, cheios de histórias. Não eram olhos cansados pela idade, não eram. Contou para os olhos atentos que entraram, a sua vida passada, fatos surpreendentes que deixaram os olhos que escutavam abertos e espantados, nem piscavam. Mas então, os olhos que narravam tudo que já haviam visto, contaram também o presente, o jeito novo que encontraram de ver as coisas e as pessoas, a eles próprios. E aconteceu num curto espaço de tempo, troca de confidências. Houve até compartilhamento de dicas culinárias, cuidados físicos, reflexões de vida. Parece que o caminho se alongou ou o tempo parou, alguma camaradagem aconteceu para aqueles dois pares de olhos que conversavam animadamente. Os olhos brilhantes saiam do carro surpresos, agradecidos e revigorados.  Sorriam mais ainda...
Os olhos retornaram a casa e encontraram dois jovens olhos ternos, que perceberam os olhos que chegavam diferentes, brilhantes, agradecidos, revigorados.
Sorriram-se com ternura.
A dona dos olhos que amanheceram diferentes percebeu que tudo depende de como decidimos olhar.

Joyce Pianchão

sábado, 20 de agosto de 2016

ENQUANTO A CASA DORME



Silêncio, a casa ainda dorme e a cidade também, as pessoas...
Eu me desperto e olho a claridade que atravessa a cortina, no canto direito da janela que me faz crer que já é dia, mas confiro as horas no relógio.  Na cabeça a agenda avisa a programação do dia. O corpo se levanta. Ao banheiro, à cozinha, pelo caminho observo as coisas, elas também dormem no mesmo lugar que as deixei. .O preparo do café. Antes, porém a água faz o corpo acordar, tomo dois copos, uma fruta e o cheiro do café no coador me desperta para a vida enfim. Ligo o rádio bem baixinho, ainda respeitando o sono da casa. O mundo já faz as notícias do dia e a música suaviza o coração com algum estrago do dia anterior. Para terminar o ritual matutino na cozinha, um cálice de vinho, bom para o coração anunciar compassadamente que há vida no corpo. Corpo que recebe no banho a água, que quando escorre da cabeça aos pés limpa com tanto vigor, com tanto prazer, que de repente me vejo agradecendo aos céus o sublime momento.
 E então eu me visto e pronta estou para enfrentar ou saborear o dia. Depende de como a casa despertar.
A casa acorda, ouço vozes, portas e janelas se abrem. Começa o dia! 
Enfrentar ou saborear...

Joyce Pianchão